04 Outubro

Movimento antivacina: como combater essa onda que ameaça sua saúde?

Graças ao movimento contra as vacinas, que se baseia em fake news, doenças graves (e evitáveis) como sarampo voltaram a ser motivo de preocupação.

A internação dele em março, por cinco dias, para tratar uma catapora, foi notícia no mundo todo. Governador de Fruili-Venezia Giulia, uma das regiões do norte da Itália, e membro da Liga, partido da extrema direita e hoje a maior força política do país, Fedriga é um dos expoentes do movimento que prega a liberdade da vacinação. Ele, contudo, acabou indo parar no hospital vítima da doença cuja melhor maneira de prevenção é exatamente a vacina.

“O mais espantoso, e que não saiu em nenhum jornal, é que recebi durante o período em que fiquei no hospital várias mensagens desejando a minha morte”, conta. “Minha questão é a liberdade de escolha — a vacina não pode ser imposta.” Filiado a um partido acostumado a inflamar o debate em temas como a defesa da família tradicional e das políticas contra a imigração, o político de 38 anos, o mais jovem governador da Itália, disse ter se espantado com o ambiente “tóxico e extremista” sobre a questão, agora classificada por ele — já recuperado e de volta às funções políticas — como uma “guerra típica das torcidas organizadas”. Ele reclama ter sido vítima do que é o principal motor contra as vacinas: a desinformação.

A resistência à vacinação foi listada pela Organização Mundial da Saúde como uma das dez maiores ameaças à saúde global neste 2019. Segundo números preliminares do órgão, os surtos de sarampo, doença altamente contagiosa, aumentaram 300% no mundo nos primeiros três meses deste ano em comparação ao mesmo período de 2018. O crescimento foi maior na África (700%) e na Europa (300%).

Relatório do Unicef, órgão da ONU para a infância, cravou que 98% dos países reportaram aumento nos casos de sarampo, doença que ressurgiu em locais que até pouco tempo atrás estavam perto de erradicá-la. Os três piores do ranking (que compara 2017 com 2018), respectivamente, foram Ucrânia, Filipinas e Brasil. A organização alertou: “A verdadeira infecção é a desinformação”.

Como acontece com os terraplanistas, os descrentes do aquecimento global e os que acreditam que o nazismo era de esquerda, o principal canal difusor das (des)informações é a internet, especialmente redes sociais como o Facebook. Pressionada, a plataforma criada por Mark Zuckerberg desativou recentemente anúncios com conteúdos contra a imunização nos Estados Unidos, onde estima-se que esse tipo de publicidade atingia quase 1 milhão de pessoas.

Na Europa, o aumento dos casos de sarampo — o maior índice em 20 anos — foi relacionado à expansão da agenda populista de direita e anti-establishment, que tem a causa como bandeira política. O cerne da crítica é a imposição das vacinas, método que alguns políticos chamam de stalinista.

Mas, como em todo movimento, nele há subdivisões e divergências: uns pregam a liberdade vacinal e outros rejeitam todo e qualquer tipo de vacina. E não é uma pauta somente da direita populista em ascensão. Há entre os adeptos muitos naturalistas que sempre votaram na esquerda e que veem com desconfiança o sistema de vacinação “massificado”, como dizem. Eles também replicam falsificações sobre uma suposta conspiração global entre governos e a indústria farmacêutica.

Dos 83 mil casos de sarampo na Europa em 2018, 53 mil foram registrados na Ucrânia, mas os índices foram alarmantes também em países como Sérvia e Grécia. O número de descrentes aumentou ainda na França e Alemanha. Diante desse cenário, o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) tem dispensado tempo e recursos para enfrentar a “hesitação vacinal”. O órgão lembra que a vacina é o principal meio de prevenção primária de doenças e uma das medidas de saúde pública com melhor relação custo-eficácia. A imunização ainda é a melhor defesa contra doenças contagiosas graves que podem ser fatais.

Em Madagascar, mais de 1,2 mil pessoas contaminadas pelo sarampo morreram desde setembro. A ilha no sul da África não tem um movimento contra a vacinação organizado — a baixa cobertura tem razões como a pobreza —, mas exemplifica como uma doença considerada banal pode ser mortal.

“Estudo fraudado de 20 anos atrás é uma das bases do movimento”

Famílias

Na Itália, país que tem um barulhento e ativo movimento antivacinação (tido como o maior depois do dos Estados Unidos), há um considerável percentual de pais que se declaram com alguma “hesitação vacinal” — 15% do total, segundo estudo nacional de 2018 assinado por 14 pesquisadores. Muitas crianças tomam as primeiras doses, mas não os reforços requeridos ao longo da infância, o que reduz a eficácia da vacina.

Há três anos, a Itália apresentava índice de cobertura vacinal inferior ao de Gana, mas graças a uma lei aprovada em 2017 o cenário se inverteu. O país estipula dez vacinas e obriga a imunização de crianças de 0 a 6 anos para que possam frequentar as escolas — desde o ano passado, centenas foram excluídas das salas de aula. Para os pais de adolescentes até 16 anos, a sanção para a falta de vacina é uma multa que pode chegar a € 500 (cerca de R$ 2.200).

Fedriga, o político internado com catapora, diz não duvidar da eficácia das vacinas, tanto que levou seus dois filhos para tomarem as doses. Como muitos, ele acha que não cabe ao Estado interferir numa questão de foro íntimo, embora uma das atribuições desse mesmo Estado seja zelar pela qualidade da saúde pública.

Como nasce o medo

O debate em torno dos males provocados pela vacinação é tão antigo quanto a própria vacina, cuja origem está na medicina popular. Conta-se que os primeiros praticantes foram agricultores ingleses no século 18 que usavam o pus das vacas para combater a varíola.

A expansão da vacina ocorreu no início do século 20. Hoje, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, ela é responsável por evitar anualmente a morte de cerca de 3 milhões de pessoas, a maioria crianças e idosos. Os efeitos adversos são raros, atesta a ciência. Costumam acontecer em pessoas imunodepressivas ou que estejam com o sistema imunológico debilitado. Muitas das complicações são relacionadas às infecções naturais que as vacinas deveriam prevenir.

As insinuações de que infecções naturais de sarampo, caxumba, catapora e gripe podem causar encefalite, um inchaço do cérebro, nunca foram comprovadas. Estudos mostram que um em cada mil casos de sarampo leva à encefalite, e que a encefalite foi relatada após a aplicação de uma em cada 3 milhões de doses da chamada vacina tríplice viral (contra sarampo, rubéola e caxumba). A conclusão é do Instituto de Medicina dos Estados Unidos: o que as vacinas não causam é significativamente mais difícil de estabelecer do que o que elas causam. É uma incidência tão baixa que os pesquisadores não conseguem determinar definitivamente se a encefalite é causada pela vacina. Mesmo assim, afloram teorias e crenças que dizem o contrário.

Jogo sujo

Em 1998 foi publicado na Inglaterra um estudo que deu grande impulso ao movimento antivacina no mundo. O responsável foi o gastroenterologista britânico Andrew Wakefield, que sugeria a relação entre a vacina tríplice e o autismo. Apesar das insinuações, o próprio Wakefield escreveu: “Não provamos uma associação entre a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola e a síndrome descrita”, sugerindo que seriam necessárias novas pesquisas.

O estudo causou um rebuliço no meio científico. Pouco depois, um jornalista descobriu que a pesquisa foi financiada por um advogado que tinha causas contra um fabricante de vacinas. O Conselho Geral de Medicina da Grã-Bretanha abriu investigação sobre o trabalho de Wakefield e concluiu que ele era “irresponsável e desonesto” e violou “repetidamente princípios fundamentais da pesquisa em medicina”.

Proibido de exercer a profissão no Reino Unido, emigrou para os EUA, onde ainda hoje é um ícone, mesmo após a desconstrução de sua pesquisa — ainda em abril deste ano, mais um grande estudo, que avaliou mais de 650 mil crianças, refutou suas conclusões.

Parecer do Conselho Geral de Medicina da Grã-Bretanha sobre médico que fez estudo fraudado

Segundo a bióloga norte-americana Donna Haraway, o debate sobre a vacinação envolve “dualismos inquietantes”.

Após ser mãe, a escritora Eula Biss investigou o tema no livro Imunidade: Germes, Vacinas e Outros Medos (publicado em 2014 e lançado no Brasil no ano passado pela editora Todavia). Para ela, os dualismos referidos por Haraway “jogam a ciência contra a natureza, o público contra o privado, a verdade contra a imaginação, o eu contra o outro, o pensamento contra a emoção e o homem contra a mulher”.

O Brasil ainda não tem um movimento antivacina organizado, mas médicos, pesquisadores e o próprio governo federal se dizem preocupados com a disseminação (quase sempre em redes sociais) de informações falsas e teorias conspiratórias. No caso do país, trata-se de grupos nanicos no Facebook que muitas vezes somente reproduzem as mensagens difundidas no exterior.

A maior parte do material disponível vem dos EUA, a meca do movimento. Um dos líderes dessa suposta conspiração internacional seria Bill Gates, cuja fundação já teria realizado doações para o Gavi, organização global formada por entidades públicas e privadas que atuaria em parceria com governos (Brasil incluído). A vacinação seria uma das facetas do globalismo selvagem.

Na rede brasileira, também ficaram conhecidas declarações de Olavo de Carvalho sobre vacinas. Em 2016, o guru de Bolsonaro publicou: “O falecido Dr. Carlos Armando de Moura Ribeiro dizia explicitamente: ‘Vacinas matam ou endoidam. Nunca dê uma a um filho seu. Se houver algum problema, venha aqui que eu resolvo.’”

Para tentar reverter a queda da cobertura vacinal nos últimos anos, o Ministério da Saúde estabeleceu a vacinação como meta prioritária da gestão para 2019 — são 19 as vacinas que integram o Calendário Nacional de Vacinação, que abrangem todas as faixas etárias e vão da gripe ao HPV. A pasta discute internamente uma lei que tornaria a vacinação obrigatória, como na Itália, mas a proposta dependerá de aprovação do Congresso.

Para o médico infectologista Jean Gorinchteyn, do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, o sistema nacional de imunização do governo federal pode ser considerado eficaz e moderno, mas ele ressalta que o próprio ministério detectou que 49% dos municípios brasileiros estão abaixo da meta da vacinação para todas as doenças. “No Brasil, não falta vacina, que consegue chegar ao ponto mais remoto da Amazônia”, conta. O mais difícil é combater a ignorância.

No início do ano, um homem morreu vítima de febre amarela no litoral do Paraná após recusar a vacina — ele assinou um termo dizendo que não queria ser vacinado. “[Foi] uma autorização para a própria morte, o que é muito trágico”, comentou com jornalistas José Carlos de Abreu, diretor da 1ª Regional de Saúde de Paranaguá, onde o episódio aconteceu. Segundo Gorinchteyn, em geral é registrada uma reação a cada 400 mil doses aplicadas da vacina de febre amarela.

Questão de fé

A recusa em ser imunizado muitas vezes tem razões religiosas. Nos EUA, um dos surtos de sarampo no estado de Nova York tem se concentrado sobretudo em comunidades de judeus ultraortodoxos. O primeiro local foi Rockland, condado que declarou estado de emergência e proibiu jovens não vacinados de frequentarem espaços públicos.

Também foram muitos os casos registrados nas regiões do Brooklyn e do Queens. Até 15 de abril, eram 329 confirmados.

Em Rockland e no Brooklyn prolifera a propaganda antivacina — baseada em fake news — que fala de vírus vivos de animais (de insetos a porcos) e riscos de doenças cerebrais. Segundo Bill de Blasio, prefeito de Nova York, a prefeitura poderá aplicar multas de até US$ 1 mil a quem recusar a vacinação e excluiu das escolas alunos sem o carnê. “Precisamos proteger nossos filhos e famílias”, disse ele.

Recentemente, um estudante de 18 anos, Ethan Lindenberger, contou ter esperado completar a maioridade para se vacinar. Segundo disse o garoto de Norwalk, cidade do estado norte-americano de Ohio, em uma entrevista à rádio NPR, seus pais eram “estúpidos e acreditavam em conspiração”, por isso ele nunca fora vacinado.

“Geralmente são pessoas ignorantes e manipuláveis. A falta de conhecimento leva ao medo”, conta a italiana Alice Pignatti, que se tornou ativista da causa após sua filha recém-nascida pegar coqueluche — a bebê foi com a mãe buscar o irmão mais velho na escola. “Provavelmente algum aluno não era vacinado”, disse. Em 2015, ela criou com outras mães o grupo IoVaccino (Eu vacino, em português), com o objetivo de combater a desinformação.

A exclusão de crianças das escolas virou assunto nacional na Itália. Muitos pais que são contra vacinas preferem matricular os filhos em instituições de educação alternativas, ainda não reconhecidas, para fugir da obrigatoriedade. É o caso da professora Chiara Agostini, cuja filha de 4 anos foi excluída de um colégio público no norte do país em 2018.

“Aí chegamos a outro problema: a Constituição italiana diz que a escola é um direito de todos”, comenta. Ela reclama que a mídia ajuda a retratar as famílias contrárias à vacinação como “medievais e egoístas”. “Simplesmente não confio em um tratamento sanitário desse tipo”, acrescentou.

Um dos precursores do debate no país europeu, ainda nos anos 1970, foi Giorgio Tremante, morto em 2017. Três dos seus quatro filhos tiveram a saúde comprometida supostamente após serem vacinados. Hoje, quem segue sua bandeira é Luca Tremante, 49, o único filho sem problemas físicos. Seu irmão mais velho, Marco, morreu aos 6.

Ainda bebê uma misteriosa doença se manifestou, mas um diagnóstico preciso só foi conhecido após a morte: descobriu-se que era vítima de uma patologia que tinha origem na vacina contra a poliomielite. Cinco anos depois, nasceram os gêmeos Alberto e Andrea, prematuros. Também depois de serem vacinados contra a pólio, Luca conta que começaram a apresentar os mesmos sintomas do irmão morto: tremor nos membros e nos olhos e dificuldade para falar.

A saúde das crianças continuou a se agravar — eles logo deixaram de caminhar. Andrea faleceu aos 4 anos. Alberto atualmente tem 43, mas vive na cadeira de rodas e é dependente de um respirador. Ele é um dos 691 italianos reconhecidos pelo Estado como afetados pela vacina, de acordo com uma lei promulgada na Itália em 1992 graças, em parte, à persistência de seu pai. “Não dá para confiar nas vacinas depois de tudo aquilo que passamos”, conta Luca, casado e pai de duas filhas, ambas não vacinadas.

Embora reconhecidos pelo Ministério da Saúde, os casos não são comprovados cientificamente. Eles são enquadrados em tal condição por força de decisão judicial. A lei prevê indenização para os custos do tratamento.

 

Fonte: Anahp

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