13 Março

Apneia do sono pode estar ligada ao Alzheimer, mostra nova pesquisa

Pessoas que sofrem com a apneia do sono podem ter um risco maior de serem acometidas pelo Alzheimer. É o que mostra um grupo de cientistas americanos em um estudo apresentado na 71ª Reunião Anual da Academia Americana de Neurologia, realizada na semana passada, na Filadélfia (EUA). A equipe analisou um grupo de mais de 200 idosos e observou forte relação entre indivíduos com problemas respiratórios no sono e acúmulo da proteína cerebral tau, um dos elementos envolvidos na  enfermidade neurodegenerativa. Para os cientistas, o resultado do trabalho pode ajudar em estratégias de prevenção da  demência mais incidente no mundo.

Os autores resolveram investigar o tema após evidências científicas recentes da associação entre o risco aumentado de demência e a perturbação do sono. Segundo os cientistas, isso ocorre principalmente na apneia obstrutiva do sono, um distúrbio potencialmente grave em que a respiração cessa repetidamente enquanto a pessoa dorme. “Estudos prospectivos em idosos com apneia demostraram uma associação entre ela e demência. Porém, não está claro como a apneia do sono pode levar ao desenvolvimento de demência e qual o tipo  pode causar”, conta ao Correio o brasileiro Diego Z. Carvalho, primeiro autor do estudo e pesquisador da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos.

Carvalho explica que, na doença de Alzheimer, dois tipos de proteína tóxica  se acumulam no cérebro: tau e beta-amiloide. Existem estudos demonstrando associação entre apneia de sono e aumento nos níveis de beta-amiloide, mas pouco se sabe sobre a tau. Para entender melhor essa relação, Carvalho e colegas usaram o Estudo de Envelhecimento da Clínica Mayo, instituição americana não governamental de pesquisa médica. Com base nos milhares de dados disponíveis, identificaram 288 pessoas com 65 anos ou mais que não tinham diagnóstico de demência. Após a seleção inicial, entrevistaram o(a) parceiro(a) desses indivíduos sobre  a ocorrência de apneia durante o sono.

Em uma segunda etapa, os 288 idosos foram submetidos a tomografias por emissão de pósitrons — exame de imagem extremamente detalhado — para a busca por sinais de acúmulo da proteína tóxica tau no córtex entorrinal, parte do cérebro em que essa molécula costuma se agrupar. Os investigadores constataram que 15% dos analisados tinham apneia do sono, conforme relato do(a) parceiro(a), e apresentavam, em média, nível 4,5% maior de proteína tau no córtex entorrinal.

Para reduzir o efeito de variáveis que pudessem interferir nos resultados, os pesquisadores controlaram outros fatores que afetam os níveis de tau no cérebro, como idade, sexo, educação, risco cardiovascular e outras queixas de sono. “Nossos resultados de pesquisa levantam a possibilidade de que a apneia do sono afeta o acúmulo de tau”, frisa Carvalho.

Limitações

Os pesquisadores acreditam que mais estudos são necessários para decifrar a relação entre os dois problemas e apontam, entre as limitações da pesquisa, a falta de estudos do sono para confirmar a apneia e sua gravidade e a falta de informação sobre o tratamento da apneia do sono pelos participantes. Também é um desafio saber qual dos dois mecanismos ocorreu primeiro. “Isso é o que chamamos de um problema semelhante à origem da galinha e do ovo”, ilustra Carvalho. “A apneia do sono causa um acúmulo de tau, uma proteína tóxica que se transforma em emaranhados no cérebro de pessoas com Alzheimer, ou o acúmulo de tau em certas áreas causa apneia do sono? Mais estudos são necessários para resolver esse problema.”

Dados futuros também poderão ajudar em estratégias de combate ao problema neurodegenerativo. “É possível que o tratamento da apneia do sono com ventilação não invasiva (CPAP) diminua a acumulação de tau, o que pode ajudar a evitar ou retardar o aparecimento da doença de Alzheimer. Porém, estudos prospectivos precisam ser feitos para investigar essa hipótese”, diz o autor.

Oxigênio

A equipe planeja, em uma próxima etapa, confirmar os  resultados em pacientes com apneia do sono que sejam diagnosticados por meio de estudos do sono especializados e detectar quais características da complicação mais contribuem  para o acúmulo de tau. “É possível que a queda do oxigênio seja o fator principal, mas a fragmentação do sono devido ao ‘microdespertar’ durante a noite e outros fatores podem também contribuir. Esses entendimentos podem ajudar a otimizar a terapia”, cogita Carvalho.

Marcelo Lobo, neurologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia (SBN), destaca que o estudo é interessante e importante por ligar uma doença que já era suspeita de estar associada ao Alzheimer. “Sabemos que o sono influencia muito a memória e, agora, com base nesses dados clínicos, vemos mais provas do quanto eles estão ligados. Também temos outros trabalhos que estão relacionando o  problema neurológico com a infecção por herpes. Novas vias de pesquisa estão se abrindo”, diz.

O médico ressalta  que, quanto mais surgirem dados relacionados à origem do Alzheimer, maiores serão as chances de combatê-lo. “Sem dúvida, é essencial se aprofundar ainda mais na relação da apneia com essa doença. Dessa forma, o tratamento preventivo pode ser mais eficiente e se pode reduzir consideravelmente as chances de a  doença surgir”, opina.

 

Fonte: Correio Braziliense

Ler 15 vezes
Avalie este item
(0 votos)

Facebook

Parceiros

Contato

Sindessmat - Sindicato dos Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Estado de Mato Grosso

Rua Barão de Melgaço, n° 2754

Edifício Work Tower - Sala 1301

Cuiabá - MT

Telefone: (65) 3623-0177

Email: diretoria@sindessmat.com.br

Sobre nós

O SINDESSMAT – Sindicato dos Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Estado de Mato Grosso – conforme seu Estatuto, é constituído para fins de estudo, coordenação, proteção e representação legal da categoria dos estabelecimentos de serviços de saúde, dentro do estado de Mato Grosso.